Foto 1: Lula Marques | Foto 2: Bruno Peres | Por João Américo *
Vamos aos números, porque a matemática não tem ideologia, mas conta muita história. Os levantamentos de fevereiro de 2026 jogaram a pá de cal na ilusão de que o país havia virado a página dos extremos. A pesquisa do instituto Paraná Pesquisas escancara um cenário de empate técnico no segundo turno: o senador Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente, com 44,4%, colado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com 43,8%. A sondagem da AtlasIntel/Bloomberg confirmou o retrato do país rachado, cravando exatos 46% das intenções de voto para cada lado.
O diagnóstico que extraímos dessa fotografia é duro, mas inevitável: o Brasil não superou a polarização. O embate político será, mais uma vez, a velha e desgastante trincheira entre esquerda e direita.
Prepare-se, caro eleitor e leitor. O que vem por aí não será bonito de se ver. Não haverá propostas, não haverá projetos estruturais ou debates sobre o futuro do país. Pelo olhar de hoje, o que teremos é um embate puramente ideológico, uma disputa histérica de narrativas. A campanha não será pautada pelo que precisa ser feito, mas pela evocação do passado: não sobre quem construiu mais, mas sobre quem roubou mais, quando, como e por quê. Temas como o escândalo do Banco Master e os rombos e fraudes no INSS dominarão a pauta nacional, servindo como munição de grosso calibre para os dois lados.
Enquanto o circo pega fogo, Flávio Bolsonaro adota uma tática cirúrgica: joga parado. Diferente do pai — intempestivo e movido a crises diárias —, o filho “Zero Um” fala pouco. É comedido, econômico nas palavras e desvia das polêmicas baratas. Ele arrasta o peso e os votos do sobrenome, mas sem a estridência que levou Jair Bolsonaro ao cárcere. Com essa postura moderada na forma, mas radical no fundo, Flávio já dá sinais robustos de que irá unificar a direita em torno de seu nome. E não sejamos ingênuos: ele tem um projeto claro, objetivo e inegociável. Sendo eleito, sua prioridade zero será usar a caneta presidencial para tirar o pai da cadeia. É uma campanha “em nome do pai”.
Mas o projeto de poder da oposição não para no Palácio do Planalto. Fora o plano nacional de eleger Flávio, a direita alimenta uma obsessão paralela: dominar o Senado Federal. Eles sabem que é lá que o jogo pesado acontece. A meta é conseguir os assentos necessários para tocar o inédito, histórico e ruidoso processo de impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal, consolidando a revanche institucional contra a Corte.
Resumo da ópera: o que veremos nas urnas é, na prática, uma reedição da eleição entre Jair Bolsonaro e Lula, apenas com um CPF diferente na cabeça da chapa da direita. E, assim como vimos recentemente, essa nova eleição será decidida no sufoco, no milimétrico voto a voto. O Brasil continua preso no seu próprio labirinto, condenado a escolher não o melhor projeto, mas a evitar o pior pesadelo.
* Dr. João Américo é advogado, com ampla experiência nas áreas de Processo Penal, Execuções Penais, Justiça Estadual e Federal, Justiça do Trabalho e Justiça Eleitoral. Também é professor universitário.
O conteúdo deste artigo reflete a apuração e a análise do autor, não representando necessariamente a opinião do Blog do Yan Lucca.







