Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil | Por João Américo *
A ansiedade é descrita pela psiquiatria como um mal do século, mas, na política pernambucana, ela virou patologia eleitoral. O calendário oficial diz que a eleição está a meses de distância, mas, na prática, o palanque já está armado, o microfone está ligado e o grito já começou.
O estado foi tomado pela “Síndrome da Campanha Acelerada”.
Assistimos, com uma mistura de tédio e indignação, a um festival de discursos inflamados — seja de que lado for —, anúncios prematuros de chapas e verdadeiras convenções partidárias travestidas de “reuniões de alinhamento”. A regra eleitoral virou mera sugestão para quem tem pressa de chegar (ou se manter) no poder.
Mas vamos ao que interessa: e o plano? E o projeto? E a proposta para a segurança pública, que sangra, ou para a saúde, que agoniza? Nada. Não há uma linha no papel. Tudo se resume a articulação de bastidor, mobilização artificial e gogó.
Os marqueteiros já distribuíram a cartilha de frases feitas. O roteiro é de uma pobreza franciscana: “estamos do lado do povo”, “somos o time do bem”, “este é o nosso projeto” (que projeto?). E, claro, a velha e manjada tática de demonizar o adversário, rotulando-o convenientemente como “o lado errado da história”. São palavras de efeito, testadas em laboratório, impecáveis na dicção, mas absolutamente vazias de compromisso com a realidade de quem pega ônibus lotado às seis da manhã.
E aqui mora o perigo real para o eleitor. Na política, assim como na física, não existe vácuo. Se não há propostas para preencher o debate, esse espaço será inevitavelmente ocupado pelo ataque. O deserto de ideias é o terreno mais fértil que existe para a baixaria, para a desconstrução de reputações e para a guerra de lama.
Quando ninguém tem o que mostrar, a única saída é focar em destruir o outro.
A verdade nua e crua é que a campanha já começou. Mas começou do pior jeito possível: acelerada na ambição pelo poder e absolutamente paralisada na vontade de propor resolver os problemas do cidadão. Apertem os cintos, meus caros. O voo será longo, turbulento e, o que é mais grave, sem plano de voo.
* Dr. João Américo é advogado, com ampla experiência nas áreas de Processo Penal, Execuções Penais, Justiça Estadual e Federal, Justiça do Trabalho e Justiça Eleitoral. Também é professor universitário.
O conteúdo deste artigo reflete a apuração e a análise do autor, não representando necessariamente a opinião do Blog do Yan Lucca.







