Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil – Por Áureo Cisneiros*

Durante muitos anos, o debate sobre segurança pública no Brasil foi conduzido de forma simplista. A sociedade foi levada a acreditar que o crime organizado se resumia ao tráfico de drogas, às disputas territoriais e aos confrontos armados.

Mas essa visão está ultrapassada.

O PCC, hoje a maior organização criminosa da América Latina, deixou há muito tempo de ser apenas uma facção criminosa. Transformou-se em uma poderosa estrutura econômica capaz de movimentar bilhões de reais, infiltrar-se em mercados legais e construir uma rede de influência que desafia diretamente a capacidade do Estado brasileiro de exercer sua autoridade.

A grande pergunta que o Brasil precisa responder é simples:

Estamos enfrentando uma organização criminosa ou uma corporação econômica clandestina?

O CRIME MUDOU DE PATAMAR

O PCC nasceu dentro do sistema prisional paulista na década de 1990.

Naquele momento, seu poder estava ligado principalmente ao tráfico de drogas e ao controle de presídios.

Hoje, a realidade é completamente diferente.

A organização ampliou suas atividades para setores como:

•⁠ ⁠Tráfico internacional de drogas;
•⁠ ⁠Contrabando;
•⁠ ⁠Lavagem de dinheiro;
•⁠ ⁠Combustíveis;
•⁠ ⁠Transporte de cargas;
•⁠ ⁠Mineração ilegal;
•⁠ ⁠Mercado financeiro clandestino;
•⁠ ⁠Empresas de fachada;
•⁠ ⁠Comércio formal;
•⁠ ⁠Golpes eletrônicos e crimes digitais.

O crime organizado descobriu aquilo que muitos governos ainda não compreenderam:

o dinheiro gera mais poder que as armas.

As armas conquistam territórios.

O dinheiro conquista mercados.

A ECONOMIA DO CRIME

Investigações recentes indicam que as organizações criminosas brasileiras movimentam centenas de bilhões de reais por ano.

Esse dinheiro não fica escondido em cofres subterrâneos.

Ele circula.

É investido.

É lavado.

É multiplicado.

O dinheiro do crime passa pelos mesmos mecanismos utilizados pela economia formal:

•⁠ ⁠Empresas;
•⁠ ⁠Postos de combustíveis;
•⁠ ⁠Imóveis;
•⁠ ⁠Transportadoras;
•⁠ ⁠Investimentos;
•⁠ ⁠Comércio;
•⁠ ⁠Serviços financeiros.

É justamente por isso que combater o crime organizado se tornou tão complexo.

A fronteira entre o dinheiro legal e o ilegal tornou-se cada vez mais difícil de identificar.

A NOVA FRONTEIRA: A POLÍTICA

Há um aspecto ainda mais preocupante que começa a chamar a atenção de autoridades de segurança pública em todo o mundo.

Organizações criminosas que movimentam bilhões de reais não se contentam apenas com lucros econômicos.

Elas buscam influência.

Buscam proteção.

Buscam poder.

As eleições que se aproximam exigem vigilância da sociedade brasileira. Organizações criminosas que movimentam bilhões de reais não investem apenas em drogas, combustíveis, contrabando ou lavagem de dinheiro. Também podem buscar influência política para proteger e expandir seus interesses econômicos.

O crime organizado compreendeu que controlar territórios é importante, mas controlar decisões é ainda melhor.

Por isso, o risco não está apenas nas armas e na violência, mas na tentativa de capturar instituições, influenciar agentes públicos e financiar projetos de poder.

Quando uma facção passa a faturar mais que muitos estados brasileiros, ela inevitavelmente passa a enxergar a política como investimento estratégico.

E toda a sociedade deve estar atenta para que o poder econômico do crime não se transforme em poder político.

O SURGIMENTO DO PARAESTADO ECONÔMICO

Existe um momento em que uma organização criminosa deixa de ser apenas uma facção.

É quando passa a exercer funções típicas de um Estado.

Arrecada.

Financia.

Investe.

Protege interesses.

Impõe regras.

Controla territórios.

Influencia mercados.

Nesse estágio, surge aquilo que muitos especialistas chamam de paraestado.

Não se trata de substituir formalmente o Estado.

Mas de criar estruturas paralelas de poder econômico e social.

Em algumas regiões do Brasil, infelizmente, essa realidade já está presente.

O VERDADEIRO CENTRO DE GRAVIDADE DO CRIME

Durante décadas, o foco principal das políticas de segurança foi a repressão armada.

Mas o centro de gravidade das organizações criminosas não está mais apenas nos arsenais.

Está nas finanças.

Uma facção pode perder toneladas de drogas.

Pode perder armas.

Pode perder integrantes.

Mas, se mantiver seu fluxo financeiro, rapidamente se reorganiza.

Por isso, a principal batalha do século XXI não é apenas policial.

É econômica.

Quem controla os recursos controla a capacidade de expansão da organização.

O BRASIL PRECISA DE UMA NOVA DOUTRINA DE SEGURANÇA

O enfrentamento moderno ao crime organizado exige:

•⁠ ⁠Inteligência financeira permanente;
•⁠ ⁠Integração entre polícias e órgãos de controle;
•⁠ ⁠Fortalecimento do COAF;
•⁠ ⁠Cooperação internacional;
•⁠ ⁠Recuperação de ativos;
•⁠ ⁠Rastreamento patrimonial;
•⁠ ⁠Combate à lavagem de dinheiro;
•⁠ ⁠Uso de tecnologia e inteligência artificial;
•⁠ ⁠Estruturas especializadas em investigação financeira.

A prisão do criminoso continua importante.

Mas tão importante quanto prender é retirar dele o patrimônio que financia a continuidade da organização.

CONCLUSÃO

O Brasil ainda trata o crime organizado como um problema de polícia.

Mas o PCC e outras grandes facções já se transformaram em algo muito maior.

São estruturas econômicas altamente sofisticadas que operam simultaneamente no mercado ilegal e na economia formal.

O risco para o país não está apenas na violência que produzem.

Está no poder econômico que acumulam.

Porque, quando uma organização criminosa passa a movimentar recursos equivalentes aos de estados inteiros, ela deixa de representar apenas uma ameaça à segurança pública.

Passa a representar uma ameaça à própria soberania nacional.

O maior perigo do crime organizado não é quando ele domina uma comunidade.

É quando passa a influenciar a economia, financiar interesses e disputar o próprio Estado.

A grande batalha do futuro não será apenas contra traficantes armados.

Será contra organizações criminosas bilionárias que aprenderam a utilizar o mercado, o capital e a influência como instrumentos de poder.

Se o século XX foi marcado pela luta do Estado contra quadrilhas, o século XXI será marcado pela luta da democracia contra organizações criminosas bilionárias.

O desafio já não é apenas combater o crime.

É impedir que ele se transforme em poder político e econômico capaz de influenciar os rumos da nação.

O conteúdo deste artigo reflete a apuração e a análise do autor, não representando necessariamente a opinião do Blog do Yan Lucca.

Áureo Cisneiros é Presidente do Sinpol-PE e Defensor da Segurança Pública como Direito Fundamental

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