O “TBT Político” desta quinta-feira (26) não podia estrear de forma diferente. Neste artigo, rememoramos um dos episódios mais marcantes, caricatos e curiosos do cenário político pernambucano: a invasão do então prefeito do Recife, Roberto Magalhães (filiado ao PFL, na época) armado, a redação do Jornal do Commercio, após uma nota publicada no veículo de imprensa.
O ano era 1999, mês de agosto, penúltimo ano de mandato do então prefeito da capital pernambucana, Roberto Magalhães, quando o inusitado episódio ocorreu. Em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil, o projeto “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”, do artista plástico Francisco Brennand, reunia mais de 90 obras onde hoje é conhecido como Parque de Esculturas Francisco Brennand. Entre elas, o projeto da famosa Torre de Cristal – referência a Flor de Cristal, descoberta pelo paisagista Roberto Burle Marx.
O que poucas pessoas realmente sabem, é que o projeto do artista recebeu inicialmente um veto da prefeitura, o que gerou uma ampla repercussão na época. O motivo? Supostamente pelo formato fálico da obra, Magalhães decidiu por vetá-la. De acordo com fontes, em respeito aos “bons costumes e em nome da moral”.
Como se esperava, os jornais registram o fato. No Jornal do Commercio, o colunista social Orismar Rodrigues — falecido em 2022, aos 64 anos — foi direto: classificou a decisão como censura estética e moral, além de ironizar o episódio em sua coluna.
Magalhães, conhecido por seu temperamento, não poderia deixar passar batido. No dia 9 de agosto, se dirigiu ao Palácio Campo das Princesas para participar de um almoço promovido pelo então governador Jarbas Vasconcelos. Na ocisão, o chefe do executivo recebia o presidente do BNDES, Andréa Calabi.
Sério, de óculos escuros e com aparente pressa, Roberto Magalhães chegou sozinho e logo após a sobremesa saiu, afirmando que iria até a sede do Jornal do Commercio, na época, localizado na Rua do Imperador, centro do Recife.
Na redação, foi direto à sala do editor Ivanildo Sampaio e pediu para falar com Orismar. Ao vê-lo, perguntou, seco: “Quantos anos você tem?”. O jornalista respondeu de forma breve. Em seguida, Magalhães abriu o paletó, mostrou um revólver calibre 38 e disse:
“Quer viver mais 20 anos? Então pare de atacar minha família.”
Apesar do susto, não houve agressão física. Mas o episódio correu rapidamente pelas redações do Estado e do país. A Folha de S. Paulo publicou: “Prefeito do Recife entra armado em redação e ameaça jornalista”
O gesto teve ampla repercussão negativa, especialmente num Brasil recém-saído da ditadura, com a liberdade de imprensa em processo de consolidação. Segundo jornalistas e analistas políticos, o episódio marcou profundamente a imagem de Roberto Magalhães, associado dali em diante ao autoritarismo. No ano seguinte, ele perderia a eleição para João Paulo (PT), encerrando sua trajetória como prefeito do Recife sob forte desgaste.
O prefeito reconheceu publicamente o erro de ter ido armado, alegando que buscava se defender e não ferir ninguém. Meses depois, ele e Orismar selaram a paz em um encontro promovido por amigos.






