Foto: Valter Campanato / Agência Brasil | Por Alexandre Júnior*
O que escolhemos quando escolhemos alguém?
Quando você vota, em quem exatamente está votando?
A pergunta pode parecer simples. Diante da urna, escolhemos nomes, números, candidatas e candidatos. Mas uma eleição não termina na pessoa que recebe o voto. Com ela, escolhemos também projetos políticos, prioridades, formas de compreender a sociedade e maneiras distintas de enfrentar — ou não — as desigualdades e injustiças sociais que atravessam nossa vida coletiva.
Talvez seja justamente aí que uma escolha aparentemente individual revele sua dimensão social. O voto é meu. Sou eu quem decide, diante da urna, qual número digitar e em quem depositar minha confiança. Entretanto, as consequências dessa decisão nunca serão exclusivamente minhas. Elas alcançarão pessoas que não conheço, grupos aos quais não pertenço e realidades sociais muito diferentes daquela em que vivo.
Votar, portanto, não deveria significar perguntar apenas: o que esta candidatura fará por mim? Há outra pergunta, talvez mais incômoda, que também merece acompanhar nossas escolhas: que sociedade ajudarei a produzir quando escolher alguém?
Porque elegemos pessoas, mas também legitimamos projetos. E projetos políticos fazem escolhas: estabelecem prioridades, distribuem recursos, reconhecem direitos, formulam políticas públicas e definem quais problemas sociais merecerão atenção. Em determinadas circunstâncias, podem também produzir silenciamentos, aprofundar desigualdades e tornar ainda menos visíveis aqueles que historicamente pouco aparecem nas decisões políticas.
Este seria um dos motivos pelos quais, nas eleições, as pessoas votam em um projeto político para o Executivo e em políticos com projetos antagônicos para o Legislativo?
É por isso que talvez precisemos começar a pensar o voto para além da urna.
Por isso, meu voto pode ser meu, mas suas consequências jamais serão somente minhas.
A neutralidade também vota
Se nossas escolhas políticas produzem consequências que ultrapassam nossa própria vida, talvez seja necessário enfrentar outra ideia bastante presente no cotidiano: a de que podemos permanecer neutros diante da política.
“Não gosto de política.” “Não discuto política.” “Todos são iguais.” “Prefiro não me envolver.” São frases que, muitas vezes, parecem expressar apenas uma decisão individual. Mas estar distante do debate político não significa estar distante dos efeitos da política. Enquanto decidimos não participar, governos continuam estabelecendo prioridades, orçamentos são definidos, políticas públicas são criadas ou interrompidas, direitos podem ser ampliados ou reduzidos, e escolhas econômicas continuam produzindo consequências concretas sobre a vida das pessoas. O que nos leva a entender que a “política da não política é uma política”.
A neutralidade, nesse sentido, não suspende a realidade.
Talvez uma das dificuldades esteja justamente em termos reduzido a política às eleições, aos partidos e às disputas entre candidaturas. Política também acontece quando discutimos quem terá acesso à escola pública, à saúde, à moradia, à cultura, ao transporte, ao trabalho digno e às condições necessárias para viver com dignidade. A política atravessa o preço da comida, o tempo gasto no ônibus, as oportunidades oferecidas às juventudes, a proteção das pessoas idosas, os direitos das mulheres, das pessoas negras, das pessoas com deficiência, da população LGBTQIAPN+ e de tantos outros grupos sociais.
Por isso, declarar-se distante da política não nos coloca fora dela.
Há ainda uma questão mais delicada. Em sociedades profundamente desiguais, talvez a possibilidade de dizer “não me interesso por política” revele uma posição social. Há pessoas para quem determinadas decisões políticas podem representar uma divergência ideológica. Para outras, as mesmas decisões podem significar comida ou fome, proteção ou violência, oportunidade ou abandono, reconhecimento ou invisibilidade.
A política não alcança todas as pessoas da mesma maneira.
É nesse ponto que a neutralidade deixa de ser apenas uma escolha privada e passa a merecer uma reflexão coletiva. Não participar, não perguntar, não acompanhar e não se posicionar não impedem que determinada realidade seja produzida. E, algumas vezes, aquilo que chamamos de neutralidade pode acabar favorecendo justamente aquilo que já está estabelecido.
A neutralidade também vota.
Mas existe uma questão anterior a essa. Mesmo quando decidimos participar, acompanhar e escolher, precisamos perguntar: como nossas escolhas são construídas?
Porque talvez não baste perguntar em quem votamos. Precisamos também perguntar quem participa da construção do nosso voto.
Quem participa da construção do nosso voto?
Nenhuma escolha política nasce no vazio. Quando chegamos à urna, levamos conosco muito mais do que uma decisão tomada nos dias anteriores. Levamos nossa história, experiências, condições materiais de existência, crenças, relações familiares, pertencimentos, expectativas, frustrações, afetos e medos. Levamos também aquilo que ouvimos, assistimos, lemos, compartilhamos e aprendemos a considerar verdadeiro.
Isso não significa que sejamos incapazes de escolher autonomamente. Significa reconhecer que a autonomia não acontece no isolamento.
Vivemos em uma sociedade na qual somos permanentemente disputados. Partidos, candidaturas, grupos econômicos, instituições religiosas, movimentos sociais, meios de comunicação, influenciadores e redes de relações procuram apresentar diferentes interpretações da realidade. Cada qual, a partir de interesses, perspectivas e projetos distintos, participa, em alguma medida, daquilo que compreendemos sobre o mundo.
O problema começa quando essa disputa deixa de buscar convencimento e passa a depender da manipulação; quando a divergência necessita fabricar inimigos; quando o medo substitui o argumento; quando uma mentira repetida muitas vezes pretende ocupar o lugar dos fatos; ou quando nossa identificação com determinada candidatura se torna tão absoluta que já não conseguimos interrogá-la.
Talvez uma democracia precise também da capacidade de desconfiarmos politicamente de nossas próprias certezas.
Isso significa perguntar por que determinada notícia nos provoca indignação enquanto outra sequer nos sensibiliza. Por que acreditamos tão rapidamente naquilo que confirma o que já pensávamos? Por que somos capazes de exigir determinada conduta de uma candidatura e relativizar a mesma conduta quando praticada por aquela que apoiamos?
Não se trata de imaginar um eleitor livre de influências. Esse eleitor provavelmente nunca existiu. Trata-se de pensar quais condições podem favorecer escolhas mais autônomas diante das múltiplas forças que disputam nossa compreensão da realidade.
E talvez esteja justamente aí uma das tarefas mais importantes da formação política: não ensinar em quem votar, mas contribuir para que ninguém precise de outra pessoa pensando em seu lugar.
Se o voto possui consequências coletivas e se nossas escolhas são construídas em meio a tantas disputas, então a pergunta sobre democracia precisa ultrapassar o instante em que apertamos a tecla verde da urna.
A democracia termina quando apertamos “confirma”?
As eleições são indispensáveis à democracia, mas não são suficientes para realizá-la.
Há algo sedutor na ideia de que nossa tarefa política possa ser cumprida em poucos minutos: entramos na seção eleitoral, escolhemos nossas candidaturas, confirmamos nossos votos e retornamos para casa. Depois disso, durante alguns anos, caberia aos eleitos cuidar da política enquanto cuidamos de nossas vidas.
Mas talvez seja justamente essa separação que precise ser interrogada.
A democracia que existe apenas durante as eleições corre o risco de transformar cidadãos em espectadores. Votamos, delegamos e esperamos. Quando alguma coisa dá errado, reclamamos daqueles que elegemos; quando dá certo, celebramos. Entretanto, entre uma eleição e outra, continuam sendo tomadas decisões que interferem diariamente na vida coletiva.
Participar politicamente não significa viver permanentemente em campanha nem transformar todas as relações humanas em disputas partidárias. Significa compreender que democracia também pressupõe acompanhar, perguntar, cobrar, dialogar, discordar, organizar-se e participar dos espaços nos quais a vida coletiva é decidida.
Talvez precisemos, inclusive, recuperar uma ideia simples: política não pertence aos políticos.
Ela pertence à sociedade.
Quando abrimos mão dessa compreensão, entregamos a poucas pessoas decisões que dizem respeito a milhões. E quando reduzimos a democracia ao voto, corremos o risco de exigir das urnas aquilo que somente uma sociedade politicamente participante pode construir.
Voltamos, então, à pergunta inicial: quando você vota, em quem exatamente está votando?
Talvez a resposta seja maior do que o nome que aparece na urna.
Votamos também em maneiras de compreender o mundo. Em prioridades. Em políticas públicas. Em formas de distribuir recursos e oportunidades. Em concepções de direitos, justiça e democracia. Em projetos que poderão ampliar possibilidades para alguns e restringi-las para outros.
Por isso, meu voto pode ser meu, mas suas consequências jamais serão somente minhas.
E talvez seja justamente essa dimensão coletiva que transforme o voto de um simples direito individual em uma das mais importantes experiências de participação democrática.
A eleição termina quando as urnas são fechadas.
A democracia, não.
O conteúdo deste artigo reflete a apuração e a análise do autor, não representando necessariamente a opinião do Blog do Yan Lucca.
* Alexandre Júnior é escritor, pedagogo, pesquisador e professor da Rede Municipal do Recife.







