Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Por Áureo Cisneiros * | Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O Brasil ainda convive com um modelo de trabalho que esgota o trabalhador e entrega pouco resultado. A escala 6×1, comum em diversos setores, é um retrato disso: longas jornadas, pouco descanso e uma rotina que consome a saúde física e mental de milhões de brasileiros.

Não é coincidência que produtividade e qualidade de vida caminhem juntas. Um trabalhador exausto produz menos, erra mais e adoece com frequência. Isso gera custos invisíveis para as empresas — afastamentos, rotatividade e baixa eficiência.

A proposta da jornada 5×2, com dois dias consecutivos de descanso, não é apenas uma pauta trabalhista. É uma estratégia de desenvolvimento. Países que adotaram jornadas mais equilibradas não quebraram — cresceram. Melhoraram a produtividade, reduziram o adoecimento e fortaleceram suas economias.

No Brasil, a resistência vem sempre do mesmo argumento: aumento de custos. Mas essa visão é curta. O que parece gasto imediato se transforma em ganho estrutural. Empresas mais organizadas, trabalhadores mais motivados e uma economia mais dinâmica.

Além disso, a realidade já mudou. Tecnologia, automação e novos modelos de gestão permitem produzir mais em menos tempo. Manter jornadas exaustivas em pleno século XXI é insistir em um modelo ultrapassado.

O Brasil, inclusive, está entre os países com maior carga horária de trabalho do mundo — e, ainda assim, não colhe os benefícios disso. Ao contrário: convivemos com baixa produtividade e um dos menores salários mínimos do mundo em termos reais, o que puxa toda a base salarial nacional para baixo. Isso atinge diretamente categorias essenciais do serviço público, como os Policiais Civis, que enfrentam jornadas exaustivas, alta pressão e, muitas vezes, remuneração incompatível com a responsabilidade que carregam. Ou seja, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Um modelo que penaliza o trabalhador sem entregar desenvolvimento.

A pergunta que fica não é se o Brasil pode adotar esse modelo.

É até quando vamos insistir em um sistema que já provou que não funciona.

A história já respondeu esse tipo de resistência. Na época da abolição da escravidão, diziam que o Brasil iria quebrar. Quando surgiram direitos como o décimo terceiro, as férias remuneradas e o salário mínimo, o discurso era o mesmo: que a economia não suportaria. Nada disso se confirmou. Ao contrário, o país avançou, modernizou suas relações de trabalho e melhorou a vida da população.

Agora, mais uma vez, tentam vender o medo como argumento. Mas a realidade mostra que evoluir nunca quebrou o Brasil — sempre o fez crescer.

Reduzir a jornada é dar um passo civilizatório.

Quem defende mais exploração em nome do medo, na verdade, tem medo de um Brasil que funcione melhor.

O conteúdo deste artigo reflete a apuração e a análise do autor, não representando necessariamente a opinião do Blog do Yan Lucca.

* Áureo Cisneiros é Presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco

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