Em especial para o Blog do Yan Lucca, o repórter especial Alexandre Júnior, entrevistou com exclusividade o candidato à Presidência Nacional do PT, Valter Pomar.
Na entrevista, o candidato comenta sobre a motivação da sua candidatura e a defesa de mudanças tanto no PT quanto no governo Lula, além de detalhar a opinião que o partido deve controlar os mandatos, e não o contrário.
Entrevista com Valter Pomar — “O futuro do PT e os desafios da esquerda no Brasil”
Por: Alexandre Júnior, especial para o Blog do Yan Lucca
Alexandre Júnior: Antes de falarmos sobre política, conte quem é Valter Pomar. Como sua trajetória pessoal e militância moldaram sua visão de esquerda?
Valter Pomar: Eu sou professor universitário, trabalho na Universidade Federal do ABC, passei em um concurso em 2014, iniciei em 2015. Faço parte do bacharelado de relações internacionais e da pós-graduação em economia política mundial. Antes disso fui por muitos anos dirigente profissionalizado PT. Entrei no Diretório Nacional do PT em 1997, fui terceiro vice-presidente nacional e também secretário de relações internacionais. Também fui secretário executivo do Foro de São Paulo e, entre dezembro de 2001 e dezembro de 2004, fui secretário de Cultura, Esportes e Turismo na prefeitura de Campinas. Deixei de ser dirigente profissionalizado, ou seja, deixei de receber salário do partido em 2013. Antes de 1997, trabalhei em diversas coisas, muitas delas ligadas a minha formação técnica-profissional: sou técnico industrial em artes gráficas, especializado como produtor visual gráfico, formado no SENAI. Trabalhei como diagramador, editor, revisor, produtor gráfico, controlador de qualidade e gerente. Ao mesmo tempo, fiz minha graduação em história na USP, depois fiz mestrado e doutorado, também em história, mais exatamente história econômica e social. Quanto a minha militância política, iniciei no final dos anos 1970, no movimento estudantil secundarista, na época da ditadura, muito influenciado pelo fato de meu pai ter sido preso político e meu avô paterno ter sido assassinado pela ditadura.
AL: O que o levou a concorrer à presidência nacional do PT neste momento? Quais mudanças você considera urgentes para o partido?
VP: A minha candidatura foi uma decisão da tendência petista a qual eu pertenço, a Articulação de Esquerda, que lançou também uma chapa intitulada “Em tempos de guerra, a esperança é vermelha”, a chapa de número 220. Minha candidatura é porta-voz desta chapa e está relacionada a duas ideias fundamentais: o PT precisa mudar e o governo precisa mudar, se quisermos reeleger Lula e se quisermos transformar o Brasil em direção a um país soberano, com bem-estar social, com democracia popular, com desenvolvimento e indústria, com outro lugar no mundo, integrado na América Latina e Caribe, um país de orientação socialista.
AL: Sua candidatura é associada a uma ala mais crítica do PT. Em que aspectos sua proposta difere da de outros pré-candidatos, como Edinho?
VP: Edinho quer ser ministro do governo, não presidente do Partido. Ele defende a política partidária e a política de governo cujos limites estão evidentes para todo mundo que tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir. Os demais candidatos manifestam diferentes níveis de crítica a política expressa pelo Edinho.
AL: O PT tem tensionamentos entre alas moderadas e radicais. Como você pretende unificar o partido sem perder sua identidade histórica?
VP: A unificação do Partido se dá na ação concreta, contra a extrema-direita e contra a direita, contra o agronegócio e as mineradoras, contra o capital financeiro e contra o imperialismo. A unidade do PT se dá na luta contra os inimigos. Internamente, nossa diversidade é um elemento de força, não de fraqueza, com uma condição: que o Partido tenha tendências, mas que nenhum militante seja obrigado a fazer parte de uma tendência. O Partido tem que funcionar perfeitamente para o militante comum. Quem atrapalha isso hoje, verdade seja dita, não são propriamente as tendências, mas sim os mandatos parlamentares e os governantes, que querem mandar no PT, como acontece nos partidos tradicionais, em que os eleitos mandam. No PT, ninguém se elege sem o Partido. Portanto, é o Partido que devem mandar nos mandatos.
AL: Em um cenário de avanço do neoliberalismo e do poder das big techs, como o PT pode construir um projeto socialista viável? É possível regulá-las ou confrontá-las?
VP: Não basta regular as big techs. A comunicação é algo importante demais, para ficar sob domínio de grandes empresas estrangeiras. Precisamos ter redes sociais de propriedade nacional e pública. Isso contribuirá para combater a ideologia neoliberal e, por tabela, ajudará a combater o neoliberalismo enquanto prática social, ou seja, o individualismo e a ditadura do capital financeiro. Isso tem relação direta com o tema do socialismo, uma vez que para existir socialismo é necessário, entre outras coisas, que uma parte majoritária da população acredite na possibilidade de construir uma sociedade com base no bem comum como princípio organizador. E será muito mais fácil universalizar este princípio, no lugar do lucro capitalista como princípio organizador, se os meios de comunicação de massa, inclusive as redes, estiverem sob controle público.
AL: Sem maioria no Legislativo, como o PT pode avançar em reformas como a agrária e a taxação de grandes fortunas? A solução está nas ruas ou em alianças?
VP: A solução está em combinar debate político-ideológico, pressão popular organizada e ação por dentro das instituições. Se ficarmos prisioneiros da correlação de forças que existem nas instituições, será praticamente impossível avançar. As alianças devem ser feitas, sempre que ajudem nisso. Não devemos fazer alianças que nos obrigam a moderar o programa e a domesticar nossa ação.
AL: Com a extrema-direita fortalecida, qual deve ser o papel do PT: disputa ideológica, reforma política ou ações judiciais? Como evitar novos retrocessos?
VP: A extrema-direita cresce, quando a esquerda vai para o centro. O melhor jeito de combater a extrema-direita é oferecendo alternativas radicais aos problemas vividos pelo povo. Ou seja, alternativas que resolvam o problema na raiz. Temos que ganhar o povo para a seguinte ideia: é a esquerda que garante a solução dos problemas que afligem o povo. Nesta batalha devemos usar todos os instrumentos possíveis, inclusive a justiça. E devemos democratizar ao máximo as instituições, motivo pelo qual defendemos a reforma política. Mas não devemos abrir mão do princípio geral segundo o principal é a ação independente da classe trabalhadora.
AL: Se eleito, qual será sua prioridade imediata? Reestruturação interna, fortalecimento das bases ou preparação para 2026?
VP: A primeira medida vai ser tomar uma cerveja e fazer um brinde à militância do Partido dos Trabalhadores. Sem a militância do PT não vamos a lugar nenhum. A segunda medida vai ser iniciar uma caravana a todos os estados, para reforçar a mobilização partidária em defesa da reforma tributária para que os ricos paguem impostos, em favor da punição aos golpistas, em favor da redução a jornada de trabalho e do fim da escala 6×1, em favor da ruptura das relações diplomáticas entre nosso país e o Estado terrorista de Israel. Em paralelo a isso e através desta mobilização, iniciaremos a preparação do PT para as eleições de 2026.
AL: Que recado você deixa para militantes, simpatizantes e críticos do PT? Por que acreditarem no futuro do partido?
VP: Meu recado é que em tempos crise do capitalismo, catástrofe climática, ofensiva da extrema-direita e guerra, é preciso de muita esperança vermelha. E a esperança vermelha no Brasil chama-se Partido dos Trabalhadores. E das trabalhadoras.







