Em especial para o Blog do Yan Lucca, o repórter especial Alexandre Júnior, entrevistou com exclusividade o Candidato à Presidência Municipal do PT no Recife, Pedro Alcântara.
Confira a seguir as respostas do candidato a questões como alianças do PT com o PSB, juventude e a crise eleitoral do PT.
Ontem, o blog do Yan Lucca publicou a entrevista exclusiva de Valter Pomar, candidato à Presidência Nacional do PT. Você pode ler por aqui.
Entrevista com Pedro Alcântara
Alexandre Júnior: Antes de falarmos sobre política, conte quem é Pedro Alcântara. Como sua trajetória pessoal e militância moldaram sua visão de esquerda?
Pedro Alcântara: Sou um militante nascido no Recife, que passou parte da infância no bairro do Ibura e boa parte da vida na periferia da região metropolitana do Recife. Filho de militantes, uma professora da rede estadual e um sindicalista, sou professor, formado em ciências sociais pela UFPE. Com muita dedicação e o esforço necessário a quem vem da classe trabalhadora, fui diplomado mestre e doutor em ciências sociais e política, na UFPE e UFRN. Tenho 36 anos, 20 dos quais filiado ao PT. No partido fui secretário estadual da juventude, de 2016 a 2020. Fui também secretário estadual de formação política, entre 2021 e 2022 e faço parte da direção estadual hoje, onde tenho procurado exercer um papel crítico da falta de aproximação do PT local com os movimentos e a vida real do povo. Nos últimos anos militei contra o aumento de passagens e em favor da causa Palestina no Recife. Tenho participado de debates em vários fóruns de esquerda, como colunista, militante e professor. No PT, luto por um partido mais à esquerda e combativo. Me considero filho da classe trabalhadora, com todo o acúmulo social e pessoal que isso acarreta. Isso me faz considerar a centralidade da questão de classe nos debates da esquerda. Defendo a democracia, o socialismo e o fim das opressões. Tenho um sonho em minhas mãos e luto coletivamente por ele. Cultivo a esperança num mundo melhor.
AL: O PT não vence uma eleição para prefeitura do Recife desde 2012, quando Geraldo Julio (PSB) derrotou Humberto Costa no primeiro turno. Na sua análise, quais foram os erros estratégicos do partido nesse período? Como conciliar autocrítica com a necessidade de renovação de lideranças?
PA: O processo de 2012 foi traumático para o partido e naturalmente levaria um tempo para ser revertido. Porém, de lá para cá houve um dificultador: foi se consolidando uma relação de subordinação do grupo que comanda o PT na capital com os governos que se sucederam na cidade. Essa submissão escalou até seu ponto máximo, na eleição de 2024, quando não dialogamos com a cidade, não tivemos candidato e entramos numa briga rebaixada pela vice. O resultado foi o quase apagamento do PT no Recife. Precisamos, antes de tudo, reverter o erro fundamental atual que é a falta de independência do PT na cidade. Quem não se respeita não é respeitado. Em segundo lugar, resgatar a memória do nosso legado à frente da prefeitura do Recife, ainda vivo e presente no cotidiano das pessoas em políticas como o SAMU, por exemplo. Depois dialogar com a cidade, com as novas gerações e os novos dilemas urbanos, do mundo do trabalho, de gênero raça e classe, inclusive através das redes sociais. O PT Recife precisa voltar a ser um polo aglutinador da nossa base, de construção com os sindicatos, movimentos, com a militância, com o povo. Só é possível conciliar a construção de novas lideranças com o fortalecimento das figuras históricas se elas todas estiverem a serviço de um projeto partidário e coletivo, onde cada um de nós tenha uma missão a cumprir. É para isso que me proponho a presidir o PT: para construirmos, juntos, todas as gerações, um novo sonho, com esperança e responsabilidade.
AL: A aliança PT-PSB no Recife já foi rompida em 2012 após conflitos entre Eduardo Campos e a cúpula do PT. Hoje, com o PSB liderado por João Campos, vale a pena retomar essa parceria? O PT não estaria se tornando ‘sócio menor’, como admitiu até mesmo petistas históricos?
PA: Antes de tudo é preciso mudar os termos da relação: ela não pode ser de submissão, tem que ser de respeito mútuo. Eleito presidente não aceitarei jamais o tipo de rebaixamento a que foi submetido o PT nas eleições de 2024 no Recife. Nós temos história, força e voto na capital e não aceitamos um tratamento que destoe disso. Sobre o governo em si e a “parceria”, eu tenho críticas. Acho que o governo do PSB governa dirigido pelos ricos e pela classe média alta da cidade. Recife está sendo redesenhada pela régua dos interesses da especulação imobiliária. Acho que Recife precisa reencontrar um caminho popular e uma alternativa consistente, pela esquerda. Eleito presidente, quero discutir no partido essa situação. No entanto, o nosso foco em 2026 será a reeleição de Lula e nada que possa atrapalhar as articulações para sua vitória, que será a vitória do povo brasileiro contra o fascismo, deve ser feito. Após 2026, eleito presidente, esse assunto voltará à mesa, para dialogarmos coletivamente sobre essa relação e os caminhos do PT na cidade.
AL: Movimentos como o Manguebeat, que nos anos 1990 tinham forte ligação com o PT, hoje criticam o partido por supostamente ter abandonado as pautas urbanas criativas. Como reconquistar esses atores sem cair em apropriação cultural?”
PA: O PT tem um legado importante de democratização e valorização da cultura popular no Recife. Nenhum outro governo fez nessa área o que fizemos, especialmente durante as gestões de João Paulo. Eu me somo às críticas do movimento mangue beat, para mim um dos grandes movimentos culturais do Brasil contemporâneo: acho que no Recife o PT tem se afastado, não só da cultura, mas de outras áreas também. É o resultado de anos de uma linha política equivocada e de subordinação a governos que pouco tem a ver com aquilo que propusemos na cidade. Precisamos retomar nossa relação com os movimentos de cultura, especialmente com as novas formas de interação da cultura com o espaço urbano. Precisamos voltar a dialogar com o Recife, com a vida e a cultura que pulsa nas ruas da cidade. É esse PT vivo e atento ao Recife que queremos retomar. E faremos isso chamando esses atores ao diálogo. Com diálogo e disposição de escuta e construção coletiva não há apropriação, mas respeito e cooperação.
AL: Nas últimas eleições, jovens da periferia migraram para candidaturas independentes ou de partidos nanicos. Qual sua proposta para reinserir o PT nesses territórios, considerando que programas como o Orçamento Participativo já não dialogam com essa geração?
PA: Eu acho que temos que voltar a apostar, sim, em políticas de participação popular. No Recife elas foram praticamente abandonadas desde que o PT saiu da prefeitura. O Orçamento Participativo dava voz às periferias e as inseria no orçamento da cidade. O que temos que pensar é como instrumentos como o OP e outros podem ser dinamizados para atraírem a nova geração. Uma resposta imediata é o uso da tecnologia. Recife precisa voltar a pensar formas de inserir a periferia nas decisões políticas. O PT deve ser um instrumento para pensarmos saídas nesse sentido. É esse o PT que queremos: um instrumento do povo pra construção da cidade que sonhamos e que já fomos capazes de fazer. O resgate do PT, que nós pretendemos realizar, fará bem ao povo do Recife.
AL: O Recife vive um colapso mobilidade após o fracasso do BRT e a crise da CBTU, que opera com apenas 40% da frota. Qual seu plano concreto para resolver isso? Defende a reestatização do sistema ou parcerias com a iniciativa privada?
PA: Esse é um dos principais problemas do Recife e sua região metropolitana. O transporte público tem massacrado os trabalhadores, com serviço péssimo e passagem cara. Eu defendo uma mudança estrutural, que tenha no horizonte a tarifa zero, o aumento de oferta de ônibus e a mudança na fórmula de remuneração das empresas (deixar de ser pela quantidade de passageiros e passar a ser por ônibus e viagens ofertadas). Eu defendo que iniciemos uma experiência de tarifa zero na cidade a partir de todo o transporte complementar nas periferias, por exemplo, esse a ser garantido pelo poder público. Por que não? Para além disso, temos que ter o básico: mais controle social, mais transparência nos contratos e a cobrança efetiva e pública da não redução das frotas nas ruas. O metrô também é importante nessa discussão e deve ser público e de qualidade. Recife precisa urgentemente discutir o investimento em transporte público como a principal saída para o caos que se tornou a mobilidade na cidade. E precisa fazer isso priorizando os mais pobres que usam o sistema de transporte.
AL: A Operação Urbana do Bairro do Recife gerou gentrificação e expulsão de moradores tradicionais. Como requalificar o Centro sem repetir esses erros, garantindo moradia digna e preservação do patrimônio cultural?
PA: Na verdade, a última década no Recife tem sido de redesenho da cidade a partir dos interesses das grandes imobiliárias. Não é só no centro. Pessoas pobres tem sido expulsas de seus territórios para construção de grandes empreendimentos ou obras públicas que visam beneficiar esses investimentos. Foi o caso da vila esperança, de comunidades no Pina. São muitos exemplos. O centro do Recife está abandonado. Eu defendo que o PT proponha um grande debate na cidade sobre duas políticas de urbanização fundamentais: a requalificação do centro com respeito à dignidade humana e aos direitos das pessoas em situação de rua e a urbanização de áreas de risco nos morros. São dois temas que foram abandonados e precisam ser retomados, mas não por tecnocratas ou pelas empreiteiras. Devem ser objeto de um amplo debate público, com participação social e popular. Um PT autônomo, com voz e revigorado na cidade poderá reforçar esse caminho.
AL: Que recado você deixa para militantes, simpatizantes e críticos do PT? Por que acreditarem no futuro do partido?
PA: Primeiro, agradeço o espaço no blog e a oportunidade de expressar nossas ideias. Essa candidatura é um esforço coletivo de vários companheiros e companheiras preocupados com o futuro do PT e do Recife. Tenho tido a felicidade de contar com apoios que muito me honram, como o do deputado e ex-prefeito João Paulo, do companheiro Fernando Ferro, de companheiras como as professoras Érika Suruagy, da Aduferpe, e Jaqueline Dornelas, do Simpere. Pessoas de luta e comprometidas com o Recife. Quero dizer a militância e aos simpatizantes do PT que é possível resgatarmos o nosso partido e fazermos dele, novamente, um instrumento de mudança e cuidado com as pessoas na cidade. Temos história, temos força e um futuro de lutas pela frente. Defendemos a renovação, o resgate e o reencontro do PT do Recife consigo mesmo, unindo todas as gerações de militantes. Queremos um PT vivo e revigorado, para ajudar a reeleição de Lula ano que vem, se somando nas lutas pelo fim da escala 6×1, da taxação de fortunas e no debate sobre o Recife. Para isso, a participação e o voto de vocês no PED é fundamental. Aos críticos, digo que conosco na presidência do PT terão oportunidade de fazer a crítica, porque vamos trazer de volta o PT ao debate público, à vida da cidade. Então, se preparem para conviver com um PT revigorado. A boa crítica será sempre bem vinda. A má crítica sempre respondida a altura. Para os críticos, os simpatizantes e militantes uma mesma ideia valerá: conosco o PT estará de volta à vida do Recife. Faremos essa luta até o fim.







